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42. “Se caísse uma chuva de alimentos, não enchia a panela da pobreza” (1980).

Autor: Ivanildo Vilanova e Severino Feitosa. Intérpretes: Idem. Gravadora: Sertanejo/Chantecler. LP: Cantadores de Hoje.

Quem é pobre não pode mais viver

Nesta época de crise tão ingrata

Se calar-se com fome, a fome mata

Se falar, é pior o que vai sofrer

Por passar muito tempo sem comer

Vai criando ferrugem até na presa

Não conhece o que é batata inglesa,

Beterraba, cenoura nem fermento

Se caísse uma chuva de alimento,

Não enchia a panela da pobreza

O pobre, apesar de ser cristão,

Ninguém vê com bons olhos nem na missa

Sem direito, sem voz e sem justiça

O ser pobre é um crime sem perdão

Só é visto na época de eleição

O político lhe usando por defesa

Para trocar o seu voto, com certeza

Por almoço ou um quilo de cimento

Se caísse uma chuva de alimento,

Não enchia a panela da pobreza

Quem é pobre não tem educandário

Sua casa é mocambo ou palafita

Mesmo a vida do pobre só imita

Aos tormentos de Cristo no calvário

Quando arruma um emprego, seu salário

É sujeito aos caprichos da empresa

Só a mão da divina natureza

É quem pode acabar seu sofrimento

Se caísse uma chuva de alimento,

Não enchia a panela da pobreza

Vi um pobre dizer na avenida

“Já não sei nesse mundo o que mais faça”

Se pedir, a polícia me ameaça

Se roubar, um mão branca me liquida

Inda tinha alegria em minha vida

Com um rádio de pilha em minha mesa

Este mesmo calou-se – que tristeza!

Eu não pude comprar mais elementos

Se caísse uma chuva de alimento,

Não enchia a panela da pobreza

A pobreza não pode gargalhar

Achar graça com nada nesta vida

Porque vive tristonha e oprimida

No trabalho, na rua e no seu lar

Nem querendo ela pode acompanhar

O cardápio grã-fino da riqueza

Quando come algum bife à milanesa

É tirado de carne de jumento

Se caísse uma chuva de alimento,

Não enchia a panela da pobreza

Todo pobre no mundo passa mal

Em império, república e ditadura

Autarquia, governo e prefeitura

Ninguém dá-lhe assistência social

E no dia em que baixa ao hospital

Não tem trato, conforto nem limpeza

Não podendo aguentar com a despesa

Vai direto ao cordão de isolamento

Se caísse uma chuva de alimento,

Não enchia a panela da pobreza

É o pobre manjado no serviço

A polícia o mantém no seu caderno

Para festa não vai que não tem terno

E no clube é sem vez por ser disterço

Reside no morro, num cortiço

Onde a lâmpada é a simples vela acesa

Lixo e lama por toda a redondeza

De ver tanta miséria eu não aguento

Se caísse uma chuva de alimento,

Não enchia a panela da pobreza

Quando o pobre padece a gente fala

“Seu lençol é a banda de uma estopa

Um gancho de pau, seu guarda roupa

Um caixão de sabão, a sua mala

Coletivo apertado é seu opala

Seu calçado é sandália japonesa

Tendo cólica, sezão, fome e fraqueza

Chá de boldo é o seu medicamento

Se caísse uma chuva de alimento,

Não enchia a panela da pobreza