Autor: Domínio público. Intérpretes: Tom Zé e Charles Furlan. Gravadora independente. CD: No jardim da política (1998).
(Fala):
- Essa música foi patrocinada pela Fundação Ford, é verdade, que patrocinou um estudo, uma pesquisa feita pelo pessoal amigo nosso da USP, Maria da Conceição, com a Iolanda Husak, a mulher do Elifas, outros amigos nossos, sobre os boias-frias.
- Toque, vagabundo, fica aí sem fazer nada ... Ele vai ser o boia-fria, aqui eu já vou malhando pra ele aprender, vai tocando enquanto eu falo você embeleza minha pornoporrea, sobe na boleia, toca essa moleza, você é boia-fria mesmo ...
- Então, voltando ao assunto com esse mal procedido atrapalhando, a Fundação Ford patrocinou, e foi feito audiovisuais que passavam nos sindicatos dos boias-frias, é verdade, tanto que isso teve até influencia nessa greve que eles fizeram em dobrado contra a Fundação Ford, mas foi a Fundação Ford que patrocinou.
- Toque bonito, mas não muito, pra não subverter.
- Socorro, que a censura acabou. Pode-se fazer o que quiser e não tem nada para fazer. Socorro, a censura acabou.
(Patrão:) Meus senhores, eu vou lhes apresentar Uma gente não sei de que lugar Uma coisa que imita a raça humana Eis aqui o trabalhador da cana
Pois agora eles só querem falar Em direitos e leis a registrar Imagine a confusão que dá
Eu explico pra eles tarde inteira Esse tal de registro na carteira Atrapalha, é burrice e é besteira
(Boia-Fria:)
Mas o traquejo da lei e do direito Não degrada quem dele se apetece Pois enquanto se nutre de respeito É o trabalhador que enobrece
Além disso quem chega-se à virtude E da lei se aproxima e se convém Tá mostrando ao patrão solicitude Por querer o que dele advém
Desse modo o registro na carteira Será nossa causa verdadeira
(Patrão:) Mas que raça de gente muquirana Me saiu esse trabalhador da cana Ignora que a lei e a justiça É da autoridade submissa E quando jegue se mete a gato mestre Vai um pé para oeste e outro leste
E assim no seu tema predileto O diabo já passa por dileto Com esse tal de registro em carteira Que atrapalha, é burrice e é besteira
(Boia-Fria:) Da justiça e da lei quem se aproxima Tá louvando o que vem de lá de cima Mas o luxo, o palácio, o desperdício É com Deus que se ajusta cada vício
Sei que a nossa caneta é o machado Mas poetas da popularidade Com sonetos e versos caprichados Já disseram por nós lá na cidade
Que lutar por registro na carteira Será nossa causa verdadeira
(Patrão:) Não me traga cantores de protesto Êta raça de gente que eu detesto E de só de ouvir este nome de política Eu já fico agastado e com azia Sinto dores, a febre me arrepia Tenho a tosse, a maleita e a raquítica Pelo campo é o voto, a abertura Já não tem mais pureza a criatura
Com esse tal de registro na carteira Que atrapalha, é burrice e é besteira
(Boia-Fria:)
Pois pra mim você tá é misturando Ter pureza com ser ignorante Tá chamando a burrice de elegante A bobeira mental advogando
Se eu estudo é lutando na peleja Da maneira da vida melhorar E com isso não vou abandonar A pureza da alma sertaneja
Desse modo o registro na carteira Será nossa causa verdadeira
Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé Que vai defender a classe operária Salvar a classe operária E cantar o que é bom para a classe operária Nenhum operário foi consultado Não há nenhum operário no palco Talvez nem mesmo na plateia Mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários Os operários que se calem Que procurem seu lugar, com sua ignorância Porque Tom Zé e os seus amigos Estão falando no dia que virá E na felicidade dos operários
Se continuarem assim Todos os operários vão ser demitidos Talvez até presos Porque ficam atrapalhando Tom Zé e o seu público, que estão tratando Do paraíso da classe operária
Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas Mesmo que elas não entendam seus desígnios E assim, depois de determinar Qual é a política conveniente para a classe operária Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes E com o sentimento de culpa aliviado
Autores: Wilson Moreira e Carlos Cachaça. Intérpretes: Wilson Moreira e Zenir Magalhães. Gravação especial do Comitê de Mobilização pelo Não Pagamento da Dívida Externa. Compacto simples.
Não vamos pagar a dívida
Porque
O dinheiro não dá
Não dá, não dá
Vejam vocês
Cem bilhões, não dá
É muito dólar
Já falei que não vai dar
Monetariamente o FMI
Não pode nos governar
E os juros sobem todo dia
Toda noite
Desse jeito vocês vão
Nos massacrar
Pegue o lápis e o papel
Essa conta já foi paga
Pela soma você vê
Toda a América Latina unida
Nessa peça não cai mais
Nem em outros carnavais
Nunca mais, nunca mais
