top of page
Acervo/blog

(Fala):

- Essa música foi patrocinada pela Fundação Ford, é verdade, que patrocinou um estudo, uma pesquisa feita pelo pessoal amigo nosso da USP, Maria da Conceição, com a Iolanda Husak, a mulher do Elifas, outros amigos nossos, sobre os boias-frias.

- Toque, vagabundo, fica aí sem fazer nada ... Ele vai ser o boia-fria, aqui eu já vou malhando pra ele aprender, vai tocando enquanto eu falo você embeleza minha pornoporrea, sobe na boleia, toca essa moleza, você é boia-fria mesmo ...

- Então, voltando ao assunto com esse mal procedido atrapalhando, a Fundação Ford patrocinou, e foi feito audiovisuais que passavam nos sindicatos dos boias-frias, é verdade, tanto que isso teve até influencia nessa greve que eles fizeram em dobrado contra a Fundação Ford, mas foi a Fundação Ford que patrocinou.

- Toque bonito, mas não muito, pra não subverter.

- Socorro, que a censura acabou. Pode-se fazer o que quiser e não tem nada para fazer. Socorro, a censura acabou.

(Patrão:) Meus senhores, eu vou lhes apresentar Uma gente não sei de que lugar Uma coisa que imita a raça humana Eis aqui o trabalhador da cana

Pois agora eles só querem falar Em direitos e leis a registrar Imagine a confusão que dá

Eu explico pra eles tarde inteira Esse tal de registro na carteira Atrapalha, é burrice e é besteira

(Boia-Fria:)

Mas o traquejo da lei e do direito Não degrada quem dele se apetece Pois enquanto se nutre de respeito É o trabalhador que enobrece

Além disso quem chega-se à virtude E da lei se aproxima e se convém Tá mostrando ao patrão solicitude Por querer o que dele advém

Desse modo o registro na carteira Será nossa causa verdadeira

(Patrão:) Mas que raça de gente muquirana Me saiu esse trabalhador da cana Ignora que a lei e a justiça É da autoridade submissa E quando jegue se mete a gato mestre Vai um pé para oeste e outro leste

E assim no seu tema predileto O diabo já passa por dileto Com esse tal de registro em carteira Que atrapalha, é burrice e é besteira

(Boia-Fria:) Da justiça e da lei quem se aproxima Tá louvando o que vem de lá de cima Mas o luxo, o palácio, o desperdício É com Deus que se ajusta cada vício

Sei que a nossa caneta é o machado Mas poetas da popularidade Com sonetos e versos caprichados Já disseram por nós lá na cidade

Que lutar por registro na carteira Será nossa causa verdadeira

(Patrão:) Não me traga cantores de protesto Êta raça de gente que eu detesto E de só de ouvir este nome de política Eu já fico agastado e com azia Sinto dores, a febre me arrepia Tenho a tosse, a maleita e a raquítica Pelo campo é o voto, a abertura Já não tem mais pureza a criatura

Com esse tal de registro na carteira Que atrapalha, é burrice e é besteira

(Boia-Fria:)

Pois pra mim você tá é misturando Ter pureza com ser ignorante Tá chamando a burrice de elegante A bobeira mental advogando

Se eu estudo é lutando na peleja Da maneira da vida melhorar E com isso não vou abandonar A pureza da alma sertaneja

Desse modo o registro na carteira Será nossa causa verdadeira




Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé Que vai defender a classe operária Salvar a classe operária E cantar o que é bom para a classe operária Nenhum operário foi consultado Não há nenhum operário no palco Talvez nem mesmo na plateia Mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários Os operários que se calem Que procurem seu lugar, com sua ignorância Porque Tom Zé e os seus amigos Estão falando no dia que virá E na felicidade dos operários

Se continuarem assim Todos os operários vão ser demitidos Talvez até presos Porque ficam atrapalhando Tom Zé e o seu público, que estão tratando Do paraíso da classe operária

Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas Mesmo que elas não entendam seus desígnios E assim, depois de determinar Qual é a política conveniente para a classe operária Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes E com o sentimento de culpa aliviado





Não vamos pagar a dívida

Porque

O dinheiro não dá

Não dá, não dá

Vejam vocês

Cem bilhões, não dá

É muito dólar

Já falei que não vai dar

Monetariamente o FMI

Não pode nos governar

E os juros sobem todo dia

Toda noite

Desse jeito vocês vão

Nos massacrar

Pegue o lápis e o papel

Essa conta já foi paga

Pela soma você vê

Toda a América Latina unida

Nessa peça não cai mais

Nem em outros carnavais

Nunca mais, nunca mais




bottom of page