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Acervo/blog

O meu pai desempregado

Minha mãe arrumadeira

Minha avó esclerosada

Meu avô na bebedeira

Minha irmã de onze anos

Já tá esperando nenê

Tem mais quatro que não estudam

Tão roubando pra comer

A vida é tão linda

A vida é tão bela

Eu e meus amiguinhos

Vivendo na favela

Tomando banho de poça, ça, ça

Pedindo um troco no sinal, sinal

Dormindo num chão batido

Enroladinha num jornal

Lá no meu barraco tem

Água encanada - não

Privada e pia - não

Sofá e cadeira - não

Café e bolacha - não

Porque eu só como uma vez por dia

Cinco dias por semana

Não, porque eu só como uma vez por dia

Eu só como uma vez

Na nossa escola não tem professora

Nossa merenda é roubada todo dia

E quando estoura um cano d'água

Tudo vira uma piscina

Viver na favela é uma alegria

É uma alegria

É uma alegria

Eu não tenho roupinha

Não tenho brinquedo

Tenho muitos bichinhos de estimação

São cinco baratinhas

Dezoito pulguinhas e um ratinho doente

Chamado Sebastião

A vida é tão linda ...

- Oh, Denilson, o que você fez rapaz,

- Você tá louco, calma rapaz

- Vai lá agora e canta você

- Não, tenho vergonha

- Vai lá e canta

- Tá bom. A vida é tão linda, a vida é tão bela, eu e meus amiguinhos

vivendo na favela, ou! ou!





Alô, meu povo

Se liga nessa

Porque nesse samba

Eu vou contar a história

Do malandro grã-fino

Olha ele aí

O homem do colarinho branco

Nadando em dinheiro

Ele foi para o estrangeiro

Pra comprar um banco

Ele apronta, ele faz o que quer

Que pra ele nunca pega nada

Descarrega no imposto de renda

Comprando fazenda na Baixada

De vez em quando ele inventa

Que uma de suas agências faliu

Quando alguém quer saber o motivo

Ele diz: a clientela sumiu

Quando a coisa fica preta

Ele arma a mutreta

E foge do Brasil

Olha ele aí ...

Ele desce do carro posudo

E o peixe miúdo vem lhe bajular

Tem mais de vinte mansões

Ninguém sabe como

Mas deixa rolar

É que o homem é peixe graúdo

Pode comer tudo

Que não vai dançar

Agora vai o pobre

Tentar fisgar um pedaço de pão

É grampeado e jogado no aquário

Pra virar isca de tubarão

Olha ele aí ...




Aí, meu senhor,

Cuidado com essa rapaziada do pescoço ocupado

Que eles não são de brincadeira

É uma pá de 171, amizade

E se vocês estão a fim de prender o ladrão

Podem voltar pelo mesmo caminho

O ladrão está escondido lá embaixo

Atrás da gravata e do colarinho

O ladrão está escondido lá embaixo

Atrás da gravata e do colarinho

Só porque moro no morro

A minha miséria a vocês despertou

A verdade é que vivo com fome

Nunca roubei ninguém, sou um trabalhador

Se há um assalto a banco

Como não podem prender o poderoso chefão

Aí os jornais vêm logo dizendo

Que aqui no morro só mora ladrão

Se vocês estão a fim de prender o ladrão...

Falar a verdade é crime

Porém eu assumo o que vou dizer

Como posso ser ladrão

Se eu não tenho nem o que comer

Não tenho curso superior

Nem o meu nome eu sei assinar

Onde foi que se viu um pobre favelado

Com passaporte pra poder roubar

Se vocês estão a fim de prender o ladrão ...

No morro ninguém tem mansão

Nem casa de campo pra veranear

Nem iate pra passeios marítimos

E nem avião particular

Somos vítimas de uma sociedade

Famigerada e cheia de malícia

No morro ninguém tem milhões de dólares

Depositados nos bancos da Suíça




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