13.O anjo esquerdo da história-v3-anexo-10-m13

13. “O anjo esquerdo da história” (1997).

Autores: Haroldo de Campos e Gilberto Mendes. Intérpretes: Madrigal Ars Viva com regência de Roberto Martins. Gravadora: EMI Music. CD: Música nova para vozes (2000).

os sem-terra afinal

estão assentados na

pleniposse da terra:

de sem-terra passaram a

com-terra: ei-los

enterrados

desterrados de seu sopro

de vida

aterrados

terrorizados

terra que à terra

torna pleniposseiros terra-

tenentes de uma

vala (bala) comum:

pelo avesso afinal

entranhados no

lato ventre do

latifúndio

que de im-

produtivo re-

velou-se assim u-

bérrimo: gerando pingue

messe de

sangue vermelhoso

lavradores sem

lavra ei-

los: afinal con-

vertidos em larvas

em mortuá-

rios despojos:

ataúdes lavrados

na escassa madeira

(matéria)

de si mesmos: a bala assassina

atocaiou-os

mortiassentados

sitibundos

decúbito-abatidos pré-

destinatários de uma

agra (magra)

re (dis) (forme) forma

-fome- a-

grária: ei-

los gregária

comunidade de meeiros

do nada:

enver-

gonhada a-

goniada

avexada

-envergoncorroída de

imo-abrasivo re-

morso-

a pátria

(como ufanar-se da? )

apátrida

pranteia os seus des-

possuídos párias-

pátria parricida:

que talvez só afinal a

espada flamejante

do anjo torto da his-

tória cha-

mejando a contravento e

afogueando os

agrossicários sócios desse

fúnebre sodalício onde a

morte-marechala comanda uma

torva milícia de janízaros-ja-

gunços:

somente o anjo esquerdo

da história escovada a

contrapelo com sua

multigirante espada po-

derá (quem dera!) um dia

convocar do ror

nebuloso dos dias vin-

douros o dia

afinal sobreveniente do

justo

ajuste de

contas