29.Metrô linha 743-v2-anexo-08-m29

29. “Metrô linha 743” (1984).

Autor: Raul Seixas. Intérprete: Idem. Gravadora: Som livre. LP: Metrô linha 743.

Ele ia andando pela rua meio apressado Ele sabia que tava sendo vigiado Cheguei para ele e disse: ei, amigo, você pode me ceder um cigarro? Ele disse: Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado Disse: O prato mais caro do melhor banquete é O que se come cabeça de gente que pensa E os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam Porque quem pensa, pensa melhor parado Desculpe minha pressa, fingindo atrasado Trabalho em cartório mas sou escritor Perdi minha pena nem sei qual foi o mês Metrô linha 743

O homem apressado me deixou e saiu voando Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando Três outros chegaram com pistolas na mão Um gritou: Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos Eu disse: Claro, pois não, mas o que é que eu fiz? Se é documento eu tenho aqui Outro disse: Não interessa, pouco importa, fique aí Eu quero é saber o que você estava pensando Eu avalio o preço me baseando no nível mental Que você anda por aí usando Aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando Minha cabeça caída, solta no chão Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez Metrô linha 743

Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha E eu era agora um cérebro, um cérebro vivo à vinagrete Meu cérebro logo pensou: que seja, mas nunca fui tiete Fui posto à mesa com mais dois E eram três pratos raros, e foi o maitre que pôs Senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado Meu último pedaço, antes de ser engolido ainda pensou grilado: Quem será este desgraçado dono desta zorra toda? Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais Mas o negócio aqui tá muito bandeira Dá bandeira demais meu Deus Cuidado, brother, cuidado, sábio senhor É um conselho sério pra vocês Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês Ah! Metrô linha 743