88.Todo ódio à burguesia-v3-cap-10-m88

88. “Todo ódio à burguesia”(sem data).

Autores: Clã Nordestino. Intérpretes: Idem. Gravadora: Face da Morte Produções. CD: A peste negra do Nordeste (2003)

Sai, sai, sai, sai da frente! A peste negra do Nordeste troca os pentes Engatilha as rimas africanas, por um mundo diferente Não improvisa, a miséria é uma ferida que nunca cicatriza Avisa as tias que reciclam a vida, num quilo de latinha Na quebrada a burguesia financia a chacina Na esquina a pretinha roda a bolsa e completa a renda mínima Entenda a armadilha e saiba que a ferida na perna do pretinho é quem paga O cruzeiro, o transatlântico romântico do casal de canalhas Pragas são como ricos e os ricos são como pragas Um dia desse o transatlântico naufraga Se a sua vida é doce, a minha fome é amarga Nem o seu cheque ouro custeia as minhas mágoas Ver você burguês sofrer, sangrar, pra mim é dádiva Odeio o teu jeito de ser, já não suporto mais vocês no poder E pros cristãos que juntam ouro e tem casas de aluguel: ‘Mais fácil um camelo passar no buraco da agulha Do que um rico entrar no reino dos céus’

Dos pretos, pelos pretos, para os pretos, com os pretos Todo ódio à burguesia Orgulho de ser da periferia

Dos pobres, pelos pobres, para os pobres, com os pobres Todo ódio à burguesia Orgulho de ser da periferia

Dos pretos, pelos pretos, para os pretos, com os pretos Todo ódio à burguesia Orgulho de ser da periferia

Dos pobres, pelos pobres, para os pobres, com os pobres Todo ódio à burguesia Orgulho de ser da periferia

Vai, chama o padre pra me exorcizar Faz uma demanda, manda o tambor rufar Chama os crentes, faz uma corrente Fecha o condomínio, esconde os filhos e parentes Guarda os carros, esconde as joias Troca o alarme das mansões luxuosas Gasta grana, reforça a segurança Blinda o seu carro, refugia as crianças Esconde o rolex, cancela o caviar Tem medo de morrer? Parou de ostentar Mais-valia: a palavra mágica pra uma noite trágica É terror, é terror, na casa da madame Cena sádica, vamos comemorar No braço, no saque, na quadrada automática Na greve, no piquete, na porta de uma fábrica Um drink do inferno aos canalhas da capa No gatilho do meu ferro o flash da revista Caras Cê vai ter que engolir minha carteira de trabalho Cê vai lembrar de mim da redução de quadro Logo eu que não fazia parte do sindicato Sempre obedeci, sempre cheguei no horário Agora eu sou o terror de canhão politizado Então segura a infinita matilha de desempregados Desemprego, desespero, filhos com medo, não é segredo não!

Dos pretos, pelos pretos, para os pretos, com os pretos ...

Cinquenta famílias dominando o Brasil Me liga, me avisa, que eu troco a minha rima por um fuzil Hey, dizem que é azul o sangue da nobreza Então vamos sangra-los e encher nossas canetas Vambora, então não demora, essa é a hora de rimar Foi a falta de escola que mandou matar Vambora, então não demora, essa é a hora de rimar Foi a falta d'água que mandou matar Vambora, então não demora, essa é a hora de rimar Foi a falta de pão que mandou matar Então, deixa o meu som bater forte no teu carro Deixa o meu som ecoar no teu barraco Deixa o meu som viajar pelo teu rádio Afinal, eu e você estamos do mesmo lado Sem direito a brinquedo, sem direito a um hobby Maioridade na grade garante os pontos pro seu Ibope Não é papo de louco, não é papo de loc No puro-sangue da minha gangue a vingança vem a galope Nos versos lokomunistas, dos pretos mais loucos do norte Palavras feitas das lágrimas de quem não para de sorrir Palavras feitas de sangue de quem não tem pra onde ir Ressuscita Negro Cosme, ressuscita Rei Zumbi Por vocês meu rap é mantra contra o FMI!

Dos pretos, pelos pretos, para os pretos, com os pretos ...

No compasso dos soluços de quem morreu de bruços Nos braços dos abraços de quem conhece o luto No rito dos sorrisos de quem visita o filho Nos olhos, bem nos olhos de quem ouviu o grito Nos dedos já sem medo de quem aperta o gatilho Nos versos controversos de quem quer mudar o mundo

Revolução na periferia!