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93.Negro Drama-v3-cap-10-m93

93. “Negro Drama” (2002)

Autores: Mano Brown e Edi Rock. Intérprete: Racionais MC. Gravadora: Zâmbia. CD: Nada como um dia após o outro dia.

Negro Drama

Entre o sucesso e a lama

Dinheiro, problemas

Inveja, luxo, fama

Negro drama

Cabelo crespo

E a pele escura

A ferida, a chaga

A procura da cura

Negro drama

Tenta ver

E não vê nada

A não ser uma estrela

Longe meio ofuscada

Sente o drama

O preço, a cobrança

No amor, no ódio

A insana vingança

Negro drama

Eu sei quem trama

E quem tá comigo

O trauma que eu carrego

Pra não ser mais um preto fudido

O drama

Da cadeia e favela

Túmulo, sangue

Sirenes, choros e velas

Passageiro do Brasil

São Paulo

Agonia que sobrevivem

Em meio a zorra e covardias

Periferias, vielas e cortiços

Você deve tá pensando

O que você tem a ver com isso?

Desde o início

Por ouro e prata

Olha quem morre

Então veja você quem mata

Recebe o mérito a farda

Que pratica o mal

Me ver, pobre, preso ou morto

Já é cultural

Histórias, registros

Escritos

Não é conto

Nem fábula

Lenda ou mito

Não foi sempre dito

Que preto não tem vez

Então olha o castelo, irmão

Foi você quem fez, cuzão

Eu sou irmão

Dos meus truta de batalha,

Eu era a carne

Agora sou a própria navalha

Tim...Tim..

Um brinde pra mim

Sou exemplo de vitórias

Trajetos e glórias

O dinheiro tira um homem da miséria

Mas não pode arrancar

De dentro dele a favela

São poucos

Que entram em campo pra vencer

A alma guarda

O que a mente tem que esquecer

Olho pra traz

Vejo a estrada que eu trilhei

Mocó

Quem teve lado a lado

E quem só ficou na bosta

Entre as frases

Fases e varias etapas

Do quem é quem

Dos mano e das mina fraca

Negro drama de estilo

Pra ser e se for

Tem que ser

Se tremer é milho

Entre o gatilho e a tempestade

Sempre a provar

Que sou homem e não um covarde

Que Deus me guarde

Pois eu sei

Que ele não é neutro

Vigia os rico

Mais ama os que vem do gueto

Eu visto preto

Por dentro e por fora

Guerreiro

Poeta entre o tempo e a memória ora

Nessa história

Vejo o dólar

E vários quilates

Falo pro mano

Que não morra e também não mate

O tic tac

Não espera, veja o ponteiro

Essa estrada é venenosa

E cheia de morteiro

Pesadelo sim

É um elogio

Pra quem vive na guerra

A paz nunca existiu

No clima quente

A minha gente sua frio

Vi um pretinho

Seu caderno era um fuzil

Um fuzil

Negro drama

Crime, futebol, música, caralho

Eu também não vou consegui fugir disso aí

Eu sou mais um

Forrest Gump é mago

Eu prefiro contar uma história real

Vou contar a minha....

Daria um filme

Uma negra

E uma criança nos braços

Solitária na floresta

De concreto e aço

Veja, olha outra vez

O rosto na multidão,

A multidão é um monstro

Sem rosto e coração

Hey, São Paulo

Terra de arranha-céu

A garoa rasga a carne

É a torre de babel

Família brasileira

Dois contra o mundo

Mãe solteira

De um promissor vagabundo

Luz, câmera e ação

Gravando a cena vai

O bastardo

Mais um filho pardo

Sem pai

Senhor de engenho eu sei

Bem quem você é

Sozinho, cê num guenta

Sozinho

Cê num guenta a pé

Cê disse que era bom

E as favela ouviu

Lá também tem

Whisky e red bull

Tênis Nike, fuzil

Admito

Seu carro é bonito

E eu não sei fazer

Internet, vídeo-cassete

Os carro loko

Atrasado

Eu tô um pouco

Se tô, eu acho sim

Só que tem que

Seu jogo é sujo

E eu não me encaixo

Eu sou problema de montão

De carnaval a carnaval

Eu vim da selva sou leão

Sou demais pro seu quintal

Problema com escola

Eu tenho mil mil fita

Inacreditável, mas seu filho me imita

No meio de vocês

Ele é o mais esperto

Ginga e fala gíria

Gíria não, dialeto

Esse não é mais seu

Hó, subiu

Entrei pelo seu rádio

Tomei, cê nem viu

Mas é isso, aquilo

O que, cê não dizia

Seu filho quer ser preto

Rhá, que ironia,

Cola o pôster do Tupac aí

Que tal, que se diz

Sente o negro drama

Vai, tenta ser feliz

Hey bacana

Quem te fez tão bom assim

O que cê deu

O que cê faz

O que cê fez por mim

Eu recebi seu ticket

Quer dizer kit

De esgoto a céu aberto

E parede madeirite

De vergonha eu não morri

To firmão

Eis-me aqui

Você não

Cê não passa

Quando o mar vermelho abrir

Eu sou o mano

Homem duro

Do gueto, Brown

Oba

Aquele louco

Que não pode errar

Aquele que você odeia

Ama nesse instante

Pele parda, ouço funk

E de onde vem

Os diamante

Da lama

Valeu mãe

Negro drama

Drama, drama

Aí, na época dos barraco de pau lá na pedreira

Onde cês tavam?

O que que cês deram por mim ?

O que que cês fizeram por mim ?

Agora tá de olho no dinheiro que eu ganho

Agora tá de olho no carro que eu dirijo

Demorou, eu quero é mais

Eu quero é ter sua alma

Aí, o rap fez eu ser o que sou

Ice Blue, Edy Rock e KL Jay e toda a família

E toda geração que faz o rap

A geração que revolucionou

A geração que vai revolucionar

Anos 90, século 21

É desse jeito

Aí, você sai do gueto

Mas o gueto nunca saí de você, morou irmão?

Você tá dirigindo um carro

O mundo todo tá de olho ni você, morou

Sabe por quê?

Pela sua origem, morou irmão?

É desse jeito que você vive

É o negro drama

Eu não li, eu não assisti

Eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama

Eu sou o fruto do negro drama

Aí, Dona Ana, sem palavra, a senhora é uma rainha, rainha

Mas aí, se tiver que voltar pra favela

Eu vou voltar de cabeça erguida

Porque assim é que é

Renascendo das cinzas

Firme e forte, guerreiro de fé

Vagabundo nada!