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Acervo/blog

Carcará,

Lá no sertão

É um bicho que avoa que nem avião

É um pássaro malvado

Tem o bico volteado que nem gavião

Carcará,

Quando vê roça queimada

Sai voando e cantando

Carcará,

Vai fazer sua caçada

Carcará come inté cobra queimada

Quando o chega o tempo da invernada

O sertão não tem mais roça queimada

Carcará mesmo assim não passa fome

Os burrego que nasce na baixada

Carcará pega, mata e come

Carcará num vai morrer de fome

Carcará, mais coragem do que home

Carcará pega, mata e come.

Carcará é malvado, é valentão

É a águia de lá do meu sertão

Os burrego novinho num pode andá

Ele puxa no imbigo inté mata

Carcará pega, mata e come

Carcará num vai morrer de fome

Carcará, mais coragem do que home

Carcará pega, mata e come

(fala)

Em 1950, mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí. 15% da Bahia. 17% de Alagoas.

Carcará pega, mata e come

Carcará num vai morrer de fome

Carcará, mais coragem do que home

Carcará pega, mata e come



Mas plantar pra dividir

Não faço mais isso, não.

Eu sou um pobre caboclo,

Ganho a vida na enxada.

O que eu colho é dividido

Com quem não plantou nada.

Se assim continuar

Vou deixar o meu sertão,

Mesmo os olhos cheios d'água

E com dor no coração.

Vou pro Rio carregar massa

Pros pedreiros em construção.

Deus até está ajudando:

Está chovendo no sertão

Mas plantar pra dividir

Faço mais isso não.

Quer ver eu bater enxada no chão

Com força, coragem, com satisfação?

É só me dar terra pra ver como é

Eu planto feijão, arroz e café

Vai ser bom pra mim e bom pró doutor.

Eu mando feijão, ele manda trator

Vocês vai ver o que é produção

Modéstia á parte, eu bato no peito:

Eu sou bom lavrador

Mas plantar pra dividir,

Não faço mais isso não.




Sapato de pobre é tamanco A vida não tem solução Morada de rico é palácio E casa de pobre é barracão Quem é pobre sempre sofre Vive sempre a trabalhar Mas eu sofro só de dia De noite eu vivo pra sambar A mulher do branco é esposa E a esposa do preto é mulher Mas minha mulher é só minha A do branco eu não sei se só dele é O preto vive atormentado E nem tem tempo pra rezar Mas o preto é mais que branco Pra mãe d'água Iemanjá A terra do dono é só dele Ali ninguém pode mandar Mas se eu não pegar na enxada Não tem ninguém para plantar Eu semeio e trato o milho E a colheita é do senhor Mas o dia da igualdade Tá chegando, seu doutor.



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