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Acervo/blog

Estamos no século das luzes

Já não há que duvidar;

Temos gás por toda a parte

Para nos alumiar

A, E, I, O, U,

Já não custa aprender,

Já se ensina de repente

Sem as letras conhecer.

Temos estradas de ferro

Para mais depressa andar,

Todos hão de correr tanto

Que por fim hão de cansar.

Ba, be, bi, bo, bu, etc

Já com novo calçamento

Vejo as ruas se calçar;

De fino sapato e meia

Já se pode passear.

Ça, ce, ci, ço, çu, etc.

Já se alargam bem as ruas,

A do Carmo é a primeira;

Hoje tudo são progressos

Da famosa ladroeira.

Da, de, di, do, du, etc.

Água suja, cisco e tudo

Já se não deve ajuntar;

É só lançar-se nas ruas

Que as carroças vêm buscar.

Fa, fe, fi, fo, fu, etc.

Já se seguram as vidas,

Já se não deve morrer;

Quem tem sua creoulinha

Não tem medo de a perder.

Ga, gue, gui, go, gu, etc,

Temos água pelos cantos,

Que sempre estão a correr;

E sujo por falta de água

Ninguém mais deve morrer.

Ja, je, ji, jo, ju, etc.

Já temos grandes teatros,

E a empresa quer crescer;

Estamos – num céu aberto,

Isso sim, é que é viver.

La, le, li, Io, lu, etc.

Quando há fogo na cidade

São Francisco dá o aviso;

O Castelo corresponde

Com três tiros do Gabizo.

Ma, me, mi, mo, mu, etc.

Os estrangeiros s'empregam

Nessa nova exploração;

Nada tendo de fortuna

Vem ganhar um dinheirão.

Na, ne, ni, no, nu, etc.

Nacionais de boca aberta

Nada tendo que comer,

Vivem como o boi de canga

Caladinho até morrer.

Pa, pe, pi, po, pu, etc.

Com a carestia dos gêneros,

Como o pobre há de viver?

Com tão pequeno salário

Como honrado pode ser?

Ra, re, ri, ro, ru, etc.

Os poderosos não querem

Co'a pobreza s'importar;

O pobre cheira a defunto

Pois só sabe importunar.

Sa, se, si, so, su, etc.

Eis o que é o país natal

Dos filhos que viu nascer;

Qualquer estrangeiro à toa

Vem aqui enriquecer.

Ta, te, ti, to, tu, etc.

Já temos por felicidade,

Melhor colonização;

Felizmente se acabou

A negra especulação.

Va, ve, vi, vo, vu, etc.

Os transportes são imensos,

Quer por terra, quer por mar;

Até se pode seguro

Já navegar pelo ar.

Xa, xe, xi, xo, xu, etc

Enfim ninguém já duvida

De tamanha perfeição;

Que não ha século como este

De maior ilustração.

Za, ze, zi, zo, zu, etc.

Rio-grandense faz timbre

Pela pátria em dar a vida

Pobre herói, ama o progresso

Não quer a pátria oprimida.

De Caseros na vitória

Foi Osório grão guerreiro,

Suas glórias, sua fama,

São do povo brasileiro

Do rei o trono defende

Fiel à Constituição

Sua espada triunfante

Da liberdade o brasão

De Caseros na vitória ...

Do regresso no cinismo

No embuste dos traidores,

Pisa avante, recebendo

Patrióticos louvores

De Caseros na vitória ...

Não sabem o que aconteceu?

O Telles carpinteiro

Para Santa Filomena

Andava a pedir dinheiro

Mas não tinha, não, licença

Da Câmara Municipal

Eis que encontra o pobre Telles

Com a guarda e com o fiscal

Fica o bicho atrapalhado

De opa e bacia na mão

Quando o fiscal disse aos guardas

“Peguem aquele ermitão” (irmão)

O Telles mui apertado

No coração sente dor

E dando azeite nas pernas

Meteu-se num corredor

Sacou a opa às carreiras

A bolsa nela envolveu

E disse todo assustado

Quem vai se embora sou eu.

Nada, nada, meu Tellinhos,

Não torno noutra a cair;

Sem tirar a tal licença

Pra santa não vou pedir.

Mas a Santa fez milagre

Pela minha devoção.

Ai, livrou-me de ser preso

E pagar condenação.

Esta Santa Filomena

É uma santa muito bela;

Mas sem tirar a licença

Nada mais peço pra ela.

Puxando pela boceta

O Telles toma tabaco;

E vai fugindo dos guardas

Oh! Que cara de macacos!

Mui padece quem é pobre

Neste mundo de ilusão,

Quando mal a gente pensa

Vai cair na correção.

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