Letra: Faustino Xavier de Novaes. Música: Belmiro Soler. Intérprete: João Nabuco (piano e canto). Gravação independente.
Meu pai tenha paciência
Mande sangrar a algibeira
Preciso de uma excelência
Quero ser comendadeira
Deus não quis fazer somente
Do mundo os homens senhores
Nós apenas somos gente
E eles são comendadores
Isto, papai, não tem jeito!
Não vai bem o mundo assim
Tanta falta de respeito
É mister que tenha fim (bis)
Tem papai quatro comendas
E vejo-o sempre em contendas
Porque um vizinho tem seis
E a sua filha, coitada,
Não tem comendas nem nada
Por causa de trinta réis (bis)
Eu já sei que o papai trata
De casar-me, e é bem preciso;
Mas assim, tão lisa e chata,
Só marido, só marido chato e liso.
Eu tenho nobreza em saias,
E nas calças tenho renda;
Faltam no dote as alfaias,
E é rica alfaia a comenda.
Sou cantora de alta monta
No piano sem rival
Canto Orfeu de ponta a ponta
Toco o Hino Nacional (bis)
Sem picar as mãos na agulha
Na educação faço bulha
Tudo o que é belo aprendi
Estudando as línguas vivas
Domino-as como cativas
Digo já yes e oui (bis)
Comendas não se consomem,
Riquezas botam-se fora.
E comendador e homem
São, são sinônimos agora,
De Deus a lei nos ensina
Dos dois sexos a tendência,
Comenda só masculina
Não pode ter descendência.
Se um rasgo de bom juízo
Comenda macha nos deu
Comenda fêmea é preciso,
Que propaga o que nasceu.
Manda assim a natureza:
O marquês tem a marquesa,
Tem baronesa o barão.
Seja nobre a terra inteira:
Quero ser comendadeira,
Da Ordem da Criação.
Letra: Adeodato Sócrates de Mello. Música: J. S. Arvellos (“Eu gosto da cor morena”). Intérprete: João Nabuco (piano e canto). Gravação independente.
Anda o povo em multidão,
Que confusão!
Lastimando o duro fado,
Sem poder comprar mais nada,
Ai! Caçoada,
Ter dinheiro desprezado.
Quer seus doces bons comer
E beber,
O deus Baco queridinho,
Há de só os adorar,
Sem tocar,
Pois não há mais trocozinho.
Quanto é triste nesta vida
Esta lida,
De confusa andar as leis
Sem saberem sustentar,
Bem mandar,
Haver troco aos pontapés.
Se lá querem aceitar,
Destrocar,
Nota grande aos moçozinhos
Bem janotas e trajados,
Afamados
Do Tesouro empregadinhos.
Estes são bem garantidos,
São servidos
De miúdos a fartar.
Só não tem os pobrezinhos,
Coitadinhos,
Quem há de a nota cambiar!
Tudo isto a quem devemos,
Nem sabemos,
Se à Justiça, se ao Poder;
Queira o povo lastimar,
Esperar,
Mundo novo aparecer.
Letra da paródia: Gualberto Peçanha. Música (“Estamos no século das luzes”): Boaventura Fernandes do Couto. Intérprete: João Nabuco (violão e canto). Gravação independente.
Já não há trocos miúdos
Nesta nossa capital,
Os cambistas são os grandes
Nesta época fatal.
Os pobres é que se veem
Em assados e apuros,
Pois desejando miúdos
Hão de pagar grandes juros.
Um gasto de três mil réis
Não é nada, ainda é pouco,
Pra uma nota de dez
Dizem logo: – Não há troco.
Até nas casas de pasto
As listas têm um letreiro,
Dizendo que pra comer
Levem trocado dinheiro.
Já se vê pelas vidraças
Letreiros sobre papéis
Dizendo não haver troco
Mesmo pra cinco mil réis.
De maneira que o pobre
Mesmo tendo algum dinheiro,
Não trazendo os tais miúdos
Passará por caloteiro.
Correm anúncios com letras
De palmo de comprimento
Dizendo que os tais miúdos
Vendem a doze por cento.
E não sabemos até onde
Tudo isso vai parar,
O certo é que o pobre
Há de sofrer e calar.
Houve há pouco uma assembleia
Já se sabe, de graúdos,
Para ver se decidiam
A questão dos tais miúdos.
Ainda agora se espera
Pela tal resolução
Não admira pois tudo
É assim nesta nação.
As cousas estão mudadas
Já se despreza os graúdos,
Pois agora só imperam
Como é sabido, os miúdos.
E quem há de nos valer
Em momento tão sinistro?
Ah! Já sei, corramos todos
Ao palácio do ministro.
