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Acervo/blog

Meu pai tenha paciência

Mande sangrar a algibeira

Preciso de uma excelência

Quero ser comendadeira

Deus não quis fazer somente

Do mundo os homens senhores

Nós apenas somos gente

E eles são comendadores

Isto, papai, não tem jeito!

Não vai bem o mundo assim

Tanta falta de respeito

É mister que tenha fim (bis)

Tem papai quatro comendas

E vejo-o sempre em contendas

Porque um vizinho tem seis

E a sua filha, coitada,

Não tem comendas nem nada

Por causa de trinta réis (bis)

Eu já sei que o papai trata

De casar-me, e é bem preciso;

Mas assim, tão lisa e chata,

Só marido, só marido chato e liso.

Eu tenho nobreza em saias,

E nas calças tenho renda;

Faltam no dote as alfaias,

E é rica alfaia a comenda.

Sou cantora de alta monta

No piano sem rival

Canto Orfeu de ponta a ponta

Toco o Hino Nacional (bis)

Sem picar as mãos na agulha

Na educação faço bulha

Tudo o que é belo aprendi

Estudando as línguas vivas

Domino-as como cativas

Digo já yes e oui (bis)

Comendas não se consomem,

Riquezas botam-se fora.

E comendador e homem

São, são sinônimos agora,

De Deus a lei nos ensina

Dos dois sexos a tendência,

Comenda só masculina

Não pode ter descendência.

Se um rasgo de bom juízo

Comenda macha nos deu

Comenda fêmea é preciso,

Que propaga o que nasceu.

Manda assim a natureza:

O marquês tem a marquesa,

Tem baronesa o barão.

Seja nobre a terra inteira:

Quero ser comendadeira,

Da Ordem da Criação.

Anda o povo em multidão,

Que confusão!

Lastimando o duro fado,

Sem poder comprar mais nada,

Ai! Caçoada,

Ter dinheiro desprezado.

Quer seus doces bons comer

E beber,

O deus Baco queridinho,

Há de só os adorar,

Sem tocar,

Pois não há mais trocozinho.

Quanto é triste nesta vida

Esta lida,

De confusa andar as leis

Sem saberem sustentar,

Bem mandar,

Haver troco aos pontapés.

Se lá querem aceitar,

Destrocar,

Nota grande aos moçozinhos

Bem janotas e trajados,

Afamados

Do Tesouro empregadinhos.

Estes são bem garantidos,

São servidos

De miúdos a fartar.

Só não tem os pobrezinhos,

Coitadinhos,

Quem há de a nota cambiar!

Tudo isto a quem devemos,

Nem sabemos,

Se à Justiça, se ao Poder;

Queira o povo lastimar,

Esperar,

Mundo novo aparecer.

Já não há trocos miúdos

Nesta nossa capital,

Os cambistas são os grandes

Nesta época fatal.

Os pobres é que se veem

Em assados e apuros,

Pois desejando miúdos

Hão de pagar grandes juros.

Um gasto de três mil réis

Não é nada, ainda é pouco,

Pra uma nota de dez

Dizem logo: – Não há troco.

Até nas casas de pasto

As listas têm um letreiro,

Dizendo que pra comer

Levem trocado dinheiro.

Já se vê pelas vidraças

Letreiros sobre papéis

Dizendo não haver troco

Mesmo pra cinco mil réis.

De maneira que o pobre

Mesmo tendo algum dinheiro,

Não trazendo os tais miúdos

Passará por caloteiro.

Correm anúncios com letras

De palmo de comprimento

Dizendo que os tais miúdos

Vendem a doze por cento.

E não sabemos até onde

Tudo isso vai parar,

O certo é que o pobre

Há de sofrer e calar.

Houve há pouco uma assembleia

Já se sabe, de graúdos,

Para ver se decidiam

A questão dos tais miúdos.

Ainda agora se espera

Pela tal resolução

Não admira pois tudo

É assim nesta nação.

As cousas estão mudadas

Já se despreza os graúdos,

Pois agora só imperam

Como é sabido, os miúdos.

E quem há de nos valer

Em momento tão sinistro?

Ah! Já sei, corramos todos

Ao palácio do ministro.

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